SOZINHO E SEM CORDAS NO CAPITOL PEAK - 2007

As Montanhas Rochosas se estendem por 4.800 km do México ao Canadá e é no Colorado que se encontram algumas das mais altas e importantes montanhas americanas. Um dos recantos mais lindos dos Estados Unidos, o Colorado é um dos berços da escalada nas Américas, paraíso para os montanhistas. São mais de mil montanhas acima dos 11 mil pés (3.353m) e 53 cumes acima de 14 mil (4.267m), os famosos “Colorado Fourteeners”.

E segundo especialistas, o Capitol Peak (4.307m) é considerado o mais difícil dos Fourteeners, se igualando em número de fatalidades com os temidos Maroon Bells, Pyramid Peak e Little Bear. Em condições invernais, apresenta-se excepcionalmente mais difícil e perigoso, com raras ascensões. Chris Davenport, famoso esquiador e montanhista americano que realizou a façanha de esquiar de todos os fourteeners, ao escalar o Capitol no inverno ao lado de Neal Beidleman (renomado guia de Alta Montanha), declarou: “foi a mais dura escalada alpina que eu fiz nos EUA (...) escalei o Capitol 4 vezes no verão e no inverno foi uma experiência completamente diferente (...) muito dura, significativamente mais íngreme, desmedidamente mais exposta e mentalmente exaustiva”.

Apesar de perigosa, trata-se de uma escalada belíssima, com “lances isolados” tecnicamente moderados ao longo de uma impressionante aresta. Os agravantes da via são a qualidade da rocha (solta e quebradiça) e suas proporções (a escalada e a trilha somam 30 km ida e volta; o desnível acumulado é de 3,8 km; e apenas a longa e afiada barbatana rochosa do Capitol possui 2.250 metros de extensão).

Decidido a escalar a via Northeast Ridge do Capitol sozinho, sem cordas e em apenas um dia (contando a aproximação e o retorno, em geral a rota é feita em 2 ou 3 dias), o montanhista e documentarista Márcio Bortolusso se aclimatou forçando o ritmo em ascensões fáceis, correndo por áreas rarefeitas, somando 8,3 km de desnível acumulado à quase 4 mil metros de altitude.

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Imprevisto e suas duras conseqüências

Após milhares de quilômetros de estradas e dias de descanso em recantos como o Grand Canyon e o Monument Valley, Bortolusso partiu para o Capitol com o objetivo de escalar rápido, com o mínimo de equipamentos. Mas o montanhista não contava que a nevasca da noite anterior iria transformar a sua escalada em uma grande empreitada.

Correndo, Bortolusso percorreu os 12,75 km da aproximação em apenas 2:15hs e, após os 300 metros iniciais da escalada, percebeu o rumo que a sua aventura iria tomar. A nevasca havia entupido as fendas com neve e coberto as áreas mais positivas. Ao vestir os crampons - grampos para as botas - não tirou mais (detalhe: a rota pede apenas sapatilhas ou bota de escalada). “A neve, que às vezes engolia meus joelhos, reduzia meu ritmo, sugava energia, me deixava alerta para possíveis gretas”, relembra o montanhista, que distraía sua tensão com os rastros na neve (como os de urso, que ele filmou dias antes).

A escalada apresenta exposição e riscos elevados em condições normais. Mas a via não estava com a rocha “limpa” (sem neve, para uma ascensão menos perigosa, pelas agarras e fendas), nem perfeitamente coberta com neve (para uma ascensão mais veloz e segura com piquetas e crampons sob gelo duro). Bortolusso precisou limpar a neve das fendas a cada lance, com as mãos nuas ou com os crampons. Sem roupas impermeáveis, sua calça e meias se encharcaram e os seus dedos se congelaram. “Além de perder a sensibilidade dos dedos, não podia forçar as agarras, pois pedras se desprendiam abaixo de meus pés, sob a neve que escondia os bons apoios e as áreas de risco”, declara o montanhista. Mais tarde, guias locais disseram que “nestas condições a rota é graduada como Classe 5 de alto risco”.

A escalada se divide na ascensão do K2 – cume de instáveis lances verticais – e na infame e intimidativa Knife Edge – estreita aresta serrilhada que é escalada por centenas de metros equilibrando-se ou em posição de “cavalinho”. No total, centenas de lances de 5 a 50 metros, com raras agarras sólidas e abismos para ambas as faces da montanha. Bortolusso declara que pensou em desistir após alguns “momentos de terror, mas continuava incessantemente, tomando coragem após sacar algumas fotos e recuperar o fôlego”. Subiu o K2 por uma variante mais difícil, afirmando que a sensação de que a cada metro ficava menos exposto que o levou ao topo: “meus pés raspavam a neve em busca de reentrâncias enquanto pedras ricocheteavam para 700 metros de vazio, minhas mãos pareciam cortadas por dentro de tanta dor e minhas vértebras endureciam a cada vibração dos blocos que me sustentavam”.

Perturbado, Bortolusso relata que temia retornar por algumas passagens, mas cogitou baixar e voltar outro dia com melhores condições da rota. “Somente no meio da via, após um sanduíche, com uma perna na face sul e outra na norte, sob uma das vistas mais incríveis que já vi, que entrei em sintonia e continuei com prazer. O medo continuava, mas já não ligava para as pedras que caiam, o sol diminuíra a dor dos dedos e voltei a escalar com velocidade”, afirma. Reanimado, realizando passagens de 4 horas em menos de 2, com a aresta final próxima, achou que o cume estava certo.

“O maior susto da minha vida”

A menos de 20 minutos para o cume, já na fácil rampa final, por um triz Márcio não virou estatística – do Capitol ou da máxima “a maioria dos acidentes acontecem nos fáceis metros finais”. “Ao sair de um ‘cavalinho’ para uma parede de blocos, fui surpreendido por uma enorme pedra de uns 200 quilos que se soltou em minhas mãos. Apavorado, joguei-me para trás, tentando entalar mãos, agarrar algo, apertando a crista por entre as minhas pernas com tanta força que quase matei o cavalo que montava... enquanto várias pedras orquestravam a pior música que já ouvi rumo ao fundo do vale. Meu reflexo não serviu para muito, já que mal pensei em me proteger e o veloz bloco já havia descido... por sorte, por fora de meu corpo” relembra com certa angústia Bortolusso, que declara que após o incidente “uma enxurrada de pensamentos autopunitivos o dominaram”.

“Mas estava feito e deveria tirar proveito do susto. Não fui imprudente e tais riscos fazem parte do que sempre me levou para a montanha. Outras situações quase me impediram de estar aqui hoje contando lorotas, mas esta foi a primeira vez que senti na pele algo maior, palpável, que apesar de assustador, muito me engrandeceu diante de planos futuros... o cume nunca poderá significar mais que o privilégio de poder voltar para a montanha”, filosofa com bom humor e presteza o montanhista.

“Sob um mantra de advertências, em passo de tartaruga, durante horas que pareceram dias, desescalei o Capitol Peak, majestosa montanha que se manterá para sempre em minha mente... quem sabe, com novas lembranças após outra visita”, finaliza Bortolusso, deixando claro os seus reais valores de vida.

 

Márcio Bortolusso é documentarista da PHOTOVERDE® Produções (photoverde.com.br) e montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, GORE-TEX® e WINDSTOPPER®.

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